A Razão dos 10%
posted by Demetria
O quanto uma pessoa conhece de si mesma? Todos os dias lemos pesquisas relatando o pouco desenvolvimento que fazemos de nosso cérebro, dos limites do corpo que estamos ainda longe de conhecer. Que dizer, então dos sentimentos? Quantas vezes nos surpreendemos com atitudes que tomamos opostas ao nosso modo peculiar de pensar e agir? Já pararam pra analisar quão pouco conhecemos das pessoas com quem nos relacionamos? Estamos solitários e carentes, despercebidos do mundo mas com uma vontade louca de retornar ao círculo vicioso das ilusões amorosas e, num dia anunciado, a vontade toma formas reais no corpo de outra pessoa. Correspondido ou não, platônico ou expresso, em algum momento capturamos uma fotografia do instante de vida daquela pessoa e o penduramos na estante dos sonhos de consumo, rasgando o cartaz de ¿procura-se¿ que andava pendurado na alma. Tudo estaria resolvido se nos contentássemos com aquela fotografia, aquele instante, aquela ponta do iceberg que descobrimos (muitas vezes nem isso) da pessoa amada. Percebemos, numa visão otimista, talvez cerca de 10% de tudo que ela representa, e queremos ir adiante, descortinar o resto. Pior que isso, não são 10% aleatórios, mas aquela parte que interessa às nossas expectativas, a que corresponde à nossa carência. Criamos a ilusão de que os outros noventa por cento terão a mesma magia, um encantamento parecido, e, é claro, os alicerces acabam corroídos conforme progredimos. Há pessoas manipuladoras, entretanto, e essas devemos temer. Aquelas que nos mostram uma parte aparentemente desinteressante, manipulam o que querem passar de si mesmas ao mundo de fora. Guardam a melhor parte pra desnudar a poucos escolhidos, aos privilegiados que passarem pelas difíceis etapas que conduzem ao prêmio da confiança irrestrita. Nem sempre funciona. Da mesma forma que há pessoas ardilosas em manipular a própria imagem, há aquelas especializadas em descobrir tesouros ocultos. Arqueólogos dos sentimentos, têm o dom de perceber detalhes da alma alheia soterrados em areias movediças de dissimulação. Muito raramente pensam ter encontrado um tesouro incalculável sob alguma forma humana, e põem-se a escavar à procura do restante, sonhando com a aposentadoria que essa descoberta pode representar. Todos, arqueólogos ou ardilosos, sinceros ou dissimulados, nenhum grupo escapa ao problema dos 10%. Querer adentrar no universo que existe além dos dez por cento da pessoa amada implica largar a segurança e o cobertor que nossas expectativas criaram e ficar à revelia num novo mundo frio, inóspito e que, muitas vezes, acaba por sufocar aquilo que procurávamos adentrar. Mórbida sensação. Porque nunca nos satisfazemos com o que temos às mãos, ao que nos foi permitido enxergar, ao que nos fascinou? A ambição desenfreada quer ir além, quer o controle, a sensação de entorpecimento total que (imagina !?!) levará à certeza de ter encontrado a pessoa certa. Poderíamos ficar com o seguro, com os 10% originais, e crescer ao redor deles. Barganhar. Revelar 7% de nós mesmos em troca de mais 2% da outra pessoa, que sempre nos desvalorizamos nesses assuntos. O que acontece depois, o final da história, os clichês descambam no mesmo ponto: em algum momento descobrimos uma parte que nos assusta ou desagrada e quebra-se a magia, o nó se desfaz e já não mais queremos nem os 10% originais. Outras vezes não. Em poucas, raras e intempestivas tentativas, o coração persiste. Lá pelos 17% encontramos um ponto de apoio que anula a decepção mais adiante, nos 21%. Perto dos 35% uma surpresa que mantém o interesse até a metade, até os 50%, que não acredito ser possível alguém conhecer mais que a metade de outra pessoa. Se passamos a vida tentando descobrir metade de nós mesmos, que dirá revelarmos a alguém o que desconhecemos? Impossível !!!Como seria fácil se o Amor fosse como o produto de prateleira do supermercado que pegamos, lemos a descrição, prazo de validade e preço, então decidimos ou não em adquirir ou passar a outro produto. “Quero esse aqui porque não custa tanto e dura mais que aquele. Aquele é mais bonito, mas vence semana que vem, não vale a pena”. Não é assim...
Compramos às cegas, só pela embalagem, sem provar do conteúdo. O dilema reside em concluir que não existe solução. Ficarmos passivos contemplando aquilo que nos foi permitido desvendar ou ir além dos dez por cento, não faz diferença. Os olhos amendoados e as sardas do colo que encantaram à primeira vista irão permanecer, ao invés de uma porcentagem... A saudade de um amor perdido, a lembrança daquela face, dos cabelos molhados na chuva, tudo isso permanece. Podemos desvendar todos os segredos que antevíamos da outra pessoa, ter a nítida convicção de que a conhecemos e tirarmos proveito da situação. Sim, podemos. Mas do que lembraremos naquela noite fria de alguns anos à frente? O que fica, sempre, são os 10% iniciais, as primeiras impressões. Não a parte que nos foi oferecida, ou a outra que teimamos em desvendar. Fica aquela que adivinhamos, aquela parte da outra pessoa que, mesmo que ela nunca saiba, sempre nos pertenceu.
1 Comments:
Simplesmente incrivel!!!
Tudo tão claro que chega a ser obvio...mas tão dificil na pratica de entendermos...
Como colocamos nossos desejos e pavores nos nossos relacionamentos!
Eu adoro a frase!
Eu prefiro ser feliz do que ter razão!
e a nossa felicidade é exclusivamente NOSSA...de ninguem mais!
bjssss
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