Vovó Rosaria e Cia.

Sou a vovó mais querida do mundo! Eu e minha turma temos sempre a palavra certa. A experiência de vida me deu a oportunidade de cada dia mais saber o que dizer e o que fazer. Luto pela paz, pelo respeito, pela dignidade e igualdade. Sonho com um mundo melhor, com honestidade, educação e moral. Sou contra o preconceito e não faço juízo antecipado das pessoas. Mas faço tudo isso sem perder o bom humor. Então sempre adoro brincar e provocar meus netinhos e netinhas, lindooos!

07 março 2007

Sentimento sem tradução...

"I miss the tingles" (Monk para Al em "Louco por você”)

Sabe aquela música ou frase que fica circulando na cabeça durante algum tempo? Filme, show, novela, seriado, não importa a fonte, fica a impressão de que a frase resume sua vida naquele período. A minha, nesses últimos tempos, tem sido "I miss the tingles". Tingle(s) é daquelas palavras em inglês que não têm tradução exata para nossa língua. Refere-se aos sentimentos que a pessoa tem quando está apaixonada: formigamento, coração descompassado, arrepio, tudo junto. Semana passada revi "Louco por você" (Down to you), um filme que gosto muito, e essa frase foi dita uma única vez, pouco antes do final. Em resumo, um dos personagens passa o filme tentando convencer um amigo sobre a necessidade da racionalização no amor, de que tudo nele é ilusório, que nos traz mais malefícios que coisas boas, já que sempre acaba. Num dos trechos finais, entretanto, ao ver o amigo arrasado porque havia terminado o romance com a namorada, capitula e solta a frase: "I miss the tingles" (algo como "Sinto falta do formigamento, do arrepio") Como determinadas épocas do ano nos fazem pronunciar essa frase de boca cheia... O outono e inverno, por exemplo. Dias frios e chuvosos, um cálice de vinho na mão, chega a noite e ficamos assistindo algum filme na TV e uma vontade louca de ter alguém do lado pra dar sentido àquele painel. Por mais que propaguemos as vantagens de estarmos "disponíveis", solteiros (e realmente há inúmeras), chega um dia (como p. ex. um dia chuvoso de outono) e vem tudo abaixo. Capitulamos. Parece que tudo se dilui na constatação de que há poucos momentos mais gostosos, na vida de uma pessoa, que poder refugiar-se num abraço bem apertado e espontâneo, esquentar as mãos entrelaçando-as nas da outra pessoa, enroscar os pés, o corpo, a alma, os destinos. A falta de paixão acaba virando úlcera nos sentimentos. De repente nos percebemos mais agressivos nos diálogos com os amigos, no trabalho, na solidão. Por mais apego ao amor-próprio que tenhamos, a ausência de um amor prejudica o equilíbrio. Não pelo fato da "injustiça" (e todos não pensam assim?) de estarmos sozinhos, mas por não podermos ter alguém a quem expressar o amor que carregamos dentro de nós. Aquele amor que não pede retribuição, quer apenas sair da caixa, extravasar; mostrar ao mundo que ele, apenas, existe. Não importa se o objeto da paixão não a merece ou não corresponde da maneira que gostaríamos. Basta ter alguém pra gostar, alguém que nos faça ter o pacote completo dos sentimentos deliciosamente previsíveis e repetitivos, e nem por isso sempre diferentes. Não que estejamos de mal com o mundo na solidão, o problema é a questão do motivo. Não tem graça escalar os próprios sonhos se não encontrarmos alguém pra compartilhar a alegria da conquista dos objetivos profissionais e pessoais. O amor, em si, é esse objetivo. Outro aspecto ruim de se passar muito tempo sozinho é a questão da referência. Nós vamos perdendo a bússola pra pessoas especiais, o norte geográfico, e pode acabar acontecendo da bússola transformar-se em roleta, onde apostamos na quantidade esperando encontrar qualidade. Que, infelizmente, dificilmente aparece dessa maneira. Lei de Murphy: pessoas interessantes não aparecem quando precisamos delas. Ou pior ainda, até aparecem mas não as vemos...
O lado bom é o da mudança, a única certeza. Mais tarde o frio despede-se, a garoa cessa, volta o sol implacável e com ele a esperança. Um pouco depois, de súbito (porque sempre vem inesperado), num dia rotineiro qualquer, o coração começa a bater diferente, o sorriso não consegue fugir do semblante. O palpite, a primeira impressão. Sim, há sempre o dia em que o time volta a vencer, você passa a gostar de músicas diferentes, um novo filme te encanta. Noites de meio de semana como a de hoje, entretanto, são covardes, apunhalam o coração de quem está sozinho. Ahhh, I miss the tingles....