Vovó Rosaria e Cia.

Sou a vovó mais querida do mundo! Eu e minha turma temos sempre a palavra certa. A experiência de vida me deu a oportunidade de cada dia mais saber o que dizer e o que fazer. Luto pela paz, pelo respeito, pela dignidade e igualdade. Sonho com um mundo melhor, com honestidade, educação e moral. Sou contra o preconceito e não faço juízo antecipado das pessoas. Mas faço tudo isso sem perder o bom humor. Então sempre adoro brincar e provocar meus netinhos e netinhas, lindooos!

04 janeiro 2007

O Amor não tira férias
By Demetria

Ontem, vi o filme “O amor não tira Férias”, uma comédia romântica muito interessante, que vale a pena ser assistida. Uma das protagonistas, uma jornalista inglesa, vive uma relação romântica com um colega por 3 anos, mas na condição de “suplente”. Ela é completamente apaixonada pelo colega lagartão, que a procura somente nas horas que precisa de refúgio e afago. O dito cujo esta de casamento marcado com uma outra colega de jornal, e a “amiga” sofre amargamente com isso.
O seu drama me chamou atenção pela freqüência que vejo pessoas com esse mesmo “roteiro”. Num momento do filme, ocorre um diálogo entre ela e um roteirista americano de Hollywood de 90 anos, onde ele sabiamente resume para ela a sua sub-condição – “Todo roteirista de filme tem uma atriz principal e uma coadjuvante que vai dar substancia à trama principal, você é uma mulher especial que deveria ser a atriz principal, mas se contenta em ter o papel de coadjuvante. Procure alguém que a veja como atriz principal”- ... Foi ai que me veio inspiração para escrever sobre pessoas coadjuvantes.
Analisando os relacionamentos ao longo da vida, poucos de nós não encontram um momento onde, mesmo sem saber, tornaram-se coadjuvantes à vida de alguém. Coadjuvantes são aqueles que estão sempre em segundo plano na vida de outras pessoas, os principais. Constantemente trocados por outro amor, pelo trabalho, por um hobby qualquer, aceitam a condição de coadjuvantes e formam um atípico clã de relacionamentos mornos. Há vários exemplos ao redor: a amiga que mantém há anos um caso com uma pessoa casada, a vizinha que descarrega na internet a frustração pela desatenção do companheiro, o olhar fatigado daquele parente preso a um relacionamento agonizante porque não consegue vislumbrar alternativas, onde o medo da solidão é maior que a necessidade de mudança. O dilema surge da inevitável pergunta: a aparente falta de pressão compensa a perspectiva de vida das pessoas coadjuvantes? Os coadjuvantes apóiam-se na teoria das poucas expectativas: desejar menos evita a decepção futura. Afinal, ninguém perde o que nunca teve em mãos. Estóicos, diminuem as expectativas a fim de sofrer menos, restringindo a lista de ambições ao que lhes parece seguro. Acomodam-se num papel secundário em relação às pessoas que lhes cercam e têm, até certo ponto, uma sensação de felicidade que convém. Esquecem que relacionamentos amorosos precisam de testemunhas, não de pessoas substitutas, a real definição das coadjuvantes...E há um grande abismo entre essas duas definições. As testemunhas acalentam o sentimento de retribuição, a ternura de acompanhar a outra pessoa ao longo do relacionamento, como um confessionário onde ambos depositam suas esperanças, frustrações, vulnerabilidades, a vida em comum. A companhia que revigora e aconselha muitas vezes sem palavras, com gestos anuentes ou a cumplicidade do silêncio. Testemunhas que, em meio à série de problemas que todo relacionamento carrega, mantém intacta a admiração pela pessoa que o outro representa aos olhos dela. Precisamos ser admirados por algum aspecto de nossa personalidade - mesmo aqueles que consideramos defeituosos -, e aí reside o grande problema das pessoas substitutas. A rua é de mão única. O pouco amor-próprio que carregam dilacera a imagem da alma refletida no espelho da outra pessoa. Enquanto os substitutos admiram, recebem em troca comodismo e apatia, muitas vezes acompanhados de aspectos ainda mais negativos. E pior, sabem que a qualquer momento a ilusão de segurança pode se transfigurar na solidão que tanto evitaram. Tornam-se descartáveis. A armadilha fatal vem na constatação de que, ao substituírem pra outras pessoas suas famílias, amizades ou carências diversas, têm também substituída a própria vida que sonharam como protagonistas, aquela das esperanças sinceras e ingênuas. Que me desculpem aqueles que se sentem seguros nessa condição, mas ninguém nasceu pra ser substituto na vida de outra pessoa. Há tanta diversidade ao redor que assusta a idéia de vivermos atrelados a alguém que não reverbera nossos anseios. A palavrinha "mudança" adormece nos lábios dos coadjuvantes. Não há varinha mágica que descortine as opções à frente mostrando onde levará cada caminho, é verdade. Sair da condição de coadjuvantes pode levar a lugares perigosos, a abismos colossais ou paisagens magníficas, mas sempre imprevisíveis. Só que os coadjuvantes nem tentam. Eles não apenas deixam de sonhar com novos roteiros; sepultam os próprios caminhos, mantendo os pés na mesma rodovia reta e sem-graça de sempre. Se o segredo da felicidade está mais na convivência que na conquista, fórmula alguma resiste a uma coadjuvante. Na busca pelo sorriso interno do coração, os pecados da omissão são os que mais agridem. Falhamos porque perdemos oportunidades e o destino nos rouba outras tantas, mas que os sonhos - ao menos eles -, sobrevivam.
Mais que sonhar, devemos então buscar assumir o papel principal em nossa própria vida, e como bônus, muito provavelmente, cruzará nosso caminho alguém que nos verá ( e amará...) tão somente dessa forma, como atriz(ator) principal!