Por Demi Demetria
(Muito bom Demi, a vovó adorou!!!)
Pensem numa situação real que me aconteceu... Eu cheguei no auditório da escola para uma daquelas deliciosas apresentações de encerramento de semestre do meu filho mais velho. Como sou uma pessoa que abomina atrasos, claro que entrei no recinto dez minutos antes do horário marcado. Inútil !!! Já estava completamente apinhado de gente. Procurei algum buraco onde pudesse me sentar e depois de algum tempo, achei dois lugares e rapidamente me sentei em um deles...
- Oi ! Moça, este lugar tá ocupado!
Olhei na direção da voz de homem que entoou estas doces palavras e encontrei o homem ao lado
- Hã? Perguntei fazendo aquela cara de estúpida.
- Esse lugar ai, tá ocupado!
Olhei pra onde tinha me sentado, achei esquisito mas passei para a cadeira do lado.- Nop! ai também está ocupado – ele me disse, já num tom mais cínico.- Como é que é? - A minha filha está neste lugar aqui e minha irmã está sentada nesse outro, exatamente onde a Sra. está – ele grunhiu.- Nossa! E eu me sentei em cima da sua irmã?Ele simplesmente ignorou meu comentário irônico e continuou...- Elas ainda não chegaram, eu estou guardando lugar para elas.Olhei para trás, dando uma pescoçada na “situation” do auditório. Era triste, estava lotado!!- Moço, prestatenção... o auditório esta lotado. E eu acho que como cheguei DEZ (vejam que enfatizei o dez...) minutos antes do show começar e também antes de suas familiares, eu tenho mais direito de assistir SENTADA ! O Sr. concorda?
Na minha voz eu já emanava aquelas “vibes” de quem vai pular no pescoço do infeliz a qualquer momento.
- EU (ele quase gritou esse eu...) cheguei mais cedo justamente para guardar os lugares para elas – ele me falou num tom bem irritado.- Escuta aqui, o meu marido também não chegou e eu não vou guardar para ele, pois acho isso uma palhaçada – falei.
- A sra vai querer armar um barraco aqui? – ele ameaçou. Seus olhos quase saltavam pra fora!!Neste minuto, lembrei do meu filho e como ele iria me agradecer quando todos da escola tivessem chamando a mãe dele de Dona Xêpa, me controlei, levantei e sentei no chão!
A filha e a irmã do camarada chegaram depois do show ter começado e assistiram tudo bem confortáveis, sentadas.Tem gente que é assim. Guarda aquele monte de lugar nas apresentações, nos cinemas, nos teatros. Acho que é uma espécie de paranóia que essa gente tem. Guardar os seus lugares em qualquer tipo de evento que envolva a coletividade. Uma vez, numa apresentação de teatro amador, onde meu pai era um dos atores, uma senhora simplesmente fez coleta de tudo que tinha dentro da bolsa para guardar os lugares. E foi em ordem decrescente de importância, na primeira cadeira ela colocou a bolsa, na outra a carteira, na outra uma escova de cabelos, noutra uma caneta e foi assim até o final da fila. Na última poltrona da fileira ela colocou um batom, que eu logicamente não vi e sentei em cima.- Mocinha! Este lugar esta ocupado! – ela veio dizendo esbaforida.- Hã? (lá vou eu de novo com meu hã?)- Tem um batom ai, estava guardando este lugar! Não viu?- Ah, tudo bem, olhe ele aqui – disse, tirando o batom debaixo de mim e devolvendo-o.- Não, moça! Eu estou guardando este lugar com o batom! Esses lugares SÃO TODOS meus – falou a mulher, apontando com o indicador os lugares e com cara de quem quer briga.Eu fiz cara de paisagem e fingi que não havia entendido. Pra ajudar a velha, seu marido veio até mim e repetiu a ladainha, que aqueles lugares eram das filhas e dos genros, que ainda não haviam chegado.- Ta tudo certo! Mas eu cheguei antes deles, senhor – disse para ele.
O velho ficou nervoso.- A senhora saia DAÍ JÁ que eu estou guardando! Estas cadeiras são minhas!
Helloooo...agora o velho tinha se tornado dono do teatro e das cadeiras...- Ah... Se as cadeiras fossem MESMO do senhor, o senhor podia fazer o quisesse com elas, inclusive guardá-las. Mas as cadeiras são do teatro – eu respondi, já pronta a criar caso.Eu na minha santa ingenuidade, pensei que, se eu ficasse ali, firme, fixa e imutável, o homem esqueceria de mim. Total engano! Os dois, surrupiaram minha técnica de estátua e ficaram ao meu lado, em pé, me intimidando. Comecei a sentir um certo medo, porque os dois não tiravam os olhos de mim. Um tempão depois, chegaram as filhinhas e os genros.
Fui fuzilada pelos olhares de todos. Uma das filhas veio até mim, indignada. Como eu tinha me sentado no lugar dela? Falta de educação a minha, absurdo!Resolvi apelar para o método da estátua. Eu não ia sair dali e nem abrir a boca. Fiquei sentada ali, parada, completamente imóvel. Não tive coragem sequer de ir ao banheiro... Olha que absurdo!?Sou da paz e não gosto de criar caso mas uma coisa que me tira do sério são estes seres “guardadores de lugares”, uma espécie de flanelinhas de poltrona... De onde vem isso? Não deve ser por pura pirraça, de fato as pessoas estão acostumadas a pagar caro pelas coisas e querem o melhor. Além disso, homens vivem em grupo. É óbvio querer marcar o território e ter os seus ao seu lado. Mas há um certo exagero. Um ódio contido que deságua exatamente ali, nas filas cheias de poltronas de um auditório. Muita gente quer descontar ali as suas frustrações.Isso é coisa de gente que nunca conseguiu achar seu próprio lugar na vida. Nem na família, nem no trabalho, nem entre os amigos, nem em canto algum. São pessoas carentes, deslocadas, perdidas, sem ter para onde ir nem onde parar. Só um órfão de alma precisa segurar uma cadeira com tanta força.Decidi que nunca guardaria lugar. É ótimo se sentir livre nessas horas de corre-corre e pânico por uma coisa tão mesquinha como um assento para a sua bunda. Hoje em dia olho com dó os guardiões de poltronas. A má notícia é que assisto muita coisa em pé, no chão, de lado, ou torta, mas feliz.
Sou uma mulher de lugar desmarcado. A minha liberdade não tem preço muito menos lugar marcado!
Demi.